Osesp, Giancarlo Guerrero e Fabio Martino em novo álbum da série ‘A Música do Brasil’

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Está disponível em todas as plataformas digitais o novo lançamento da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo – Osesp pela série A Música do Brasil, que faz parte do projeto Brasil em Concerto, uma parceria do Instituto Guimarães Rosa, órgão de cultura do Ministério das Relações Exteriores, com três orquestras brasileiras — além da Osesp, fazem parte as Filarmônicas de Minas Gerais e de Goiás —, com a Academia Brasileira de Música e com o selo Naxos.

Gravado na Sala São Paulo em agosto de 2023 e com produção, engenharia e edição de Ulrich Schneider, este é o trigésimo título da série A Música do Brasil. O álbum traz cinco obras envolventes do compositor paulista Francisco Mignone, um dos maiores nomes da música sinfônica brasileira, interpretadas pela Osesp e pelo pianista brasileiro Fabio Martino, sob regência do maestro costa-riquenho Giancarlo Guerrero: são elas as Fantasias nº 1, nº 2, nº 3 e nº 4, e a peça Burlesca e Toccata.

O álbum Fantasias Brasileiras Nos. 1–4 pode ser encontrado em edição física na Loja Clássicos, que fica dentro da Sala São Paulo (piso térreo), e em edição digital disponível nas mais diversasplataformas de áudio.

Sentimental, telúrico, exuberante, polivalente e extremamente eclético, Francisco Mignone (1987-1986) foi uma das principais figuras da música brasileira no século XX. Com extrema inteligência e inabalável bom humor, Mignone percorreu inúmeros estilos e gêneros composicionais, do serialismo ao politonalismo, do nacionalismo arraigado à música de sabor europeu.

Tornou-se uma figura de destaque no cenário musical brasileiro após seu retorno em 1929, depois de longos estudos na Europa. Suas quatro Fantasias Brasileiras para piano e orquestra fazem parte de sua fase nacionalista, sendo a primeira do ciclo iniciado pelo solista João de Souza Lima, que pediu a Mignone uma obra com “sabor brasileiro”. Essas obras compartilham um estilo festivo e exuberante ao qual o compositor retornaria em sua Burlesca e Toccata, que exige virtuosismo acrobático do solista em uma música que surpreende pela justaposição da atonalidade com temas populares.

Seu catálogo de obras é extenso, incluindo todos os gêneros de música vocal e instrumental. Desse gigantesco painel criativo, é possível destacar obras de imagens fortes e orquestração brilhante, como a ópera O Chalaça e o balé Quincas Berro d’Água, além de Festa das Igrejas e o celebrado Maracatu de Chico-Rei, gravados e lançados em CD pela Osesp. É também possível apontar delicadas miniaturas, como os 12 Estudos para violão ou as inesquecíveis Valsas de esquina, para piano, reflexos de seu relacionamento intelectual com Mário de Andrade, que o influenciou definitivamente a abraçar, em perspectiva estética, a causa da música brasileira. Na juventude, Mignone estudou em São Paulo, no Conservatório Dramático e Musical, aperfeiçoando-se mais tarde em Milão, na Itália, com Vincenzo Ferroni. A partir de 1933, passou a residir no Rio de Janeiro, onde se tornou — em 1939 — professor de regência do Instituto Nacional de Música, hoje Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

FRANCISCO MIGNONE

Fantasias Brasileiras Nos. 1–4 ● Burlesca e Toccata

Fantasia Brasileira No. 1 (1929)                    10:05
Fantasia Brasileira No. 2 (1931)                    9:58
Fantasia Brasileira No. 3 (1934)                    11:19
Fantasia Brasileira No. 4 (1936)                    12:11
Burlesca e Toccata (1958)                             14:13

[Capa: “Alterado I” (1957), de Hermelindo Fiaminghi (1920-2004), Coleção da Pinacoteca do Estado de São Paulo]

 

Sobre a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo – Osesp
Desde seu primeiro concerto, em 1954, a Osesp tornou-se parte indissociável da cultura paulista e brasileira, promovendo transformações culturais e sociais profundas. A cada ano, a Osesp realiza em média 130 concertos para cerca de 150 mil pessoas. Thierry Fischer tornou-se diretor musical e regente titular em 2020, tendo sido precedido, de 2012 a 2019, por Marin Alsop. Seus antecessores foram Yan Pascal Tortelier, John Neschling, Eleazar de Carvalho, Bruno Roccella e Souza Lima. Além da Orquestra, há um coro profissional, grupos de câmara, uma editora de partituras e uma vibrante plataforma educacional. A Osesp já realizou turnês em diversos estados do Brasil e também pela América Latina, Estados Unidos, Europa e China, apresentando-se em alguns dos mais importantes festivais da música clássica, como o BBC Proms, e em salas de concerto como o Concertgebouw de Amsterdam, a Philharmonie de Berlim e o Carnegie Hall em Nova York. Mantém, desde 2008, o projeto “Osesp Itinerante”, promovendo concertos, oficinas e cursos de apreciação musical pelo interior do estado de São Paulo. É administrada pela Fundação Osesp desde 2005.

Sobre Giancarlo Guerrero regente
Giancarlo Guerrero tem sido convidado frequente na América do Norte, apresentando-se com a Filarmônica de Nova York, a Orquestra Sinfônica de Chicago, a Orquestra Sinfônica Nacional, a Sinfônica de São Francisco e as orquestras de Boston, Los Angeles, Filadélfia e Seattle, entre outras. Internacionalmente, regeu orquestras pela Europa, Nova Zelândia e Austrália. A temporada 2024/25 marca a décima sexta e última temporada de Guerrero como diretor musical da Sinfônica de Nashville, com quem lançou 21 gravações comerciais, conquistando seis prêmios Grammy e 13 indicações ao mesmo prêmio. Guerrero atuou como diretor musical designado da Orquestra de Sarasota em 2024/25 e tornou-se diretor musical na temporada 2025/26. Fez várias gravações com a Filarmônica de Wrocław da NFM – onde atuou como diretor musical por seis temporadas – incluindo o sucesso da Billboard Bomsori: Violin on Stage (Deutsche Grammophon). Também ocupou os cargos de maestro convidado principal da Orquestra de Cleveland (Residência de Miami) e da Orquestra Gulbenkian em Lisboa, de diretor musical da Orquestra Sinfônica de Eugene e de maestro associado da Orquestra de Minnesota. Nascido na Nicarágua, Guerrero imigrou para a Costa Rica durante a infância. Estudou percussão e regência na Universidade Baylor e obteve seu mestrado em regência na Universidade Northwestern.

Sobre Fabio Martino piano
O pianista Fabio Martino consolidou-se no cenário musical internacional por meio de interpretações que conquistaram o público e foram muito elogiadas pela crítica especializada. Seu espírito aberto e versatilidade são evidentes não apenas em sua discografia, mas também na escolha do repertório para concertos. Como solista, Fabio Martino se apresenta em grandes salas de concerto do mundo todo, tocando concertos para piano de compositores como Prokofiev, Rachmaninov, Beethoven, Mozart, Gershwin, Tchaikovsky, Ravel e Bartók. Ele também cativa o público com obras menos conhecidas de Villa-Lobos, Medtner, Guarnieri, Bortkiewicz e Mignone, entre outros. Martino demonstrou sua habilidade e presença de palco marcante em diversas produções teatrais, cinematográficas e televisivas, bem como em gravações ao vivo para as emissoras SWR, BR, NDR, TV Globo e BBC. Em 2020, gravou a música para o filme mudo Beethoven para a ARTE e a ZDF.

Sobre a série A Música do Brasil
A série A Música do Brasil faz parte do projeto Brasil em Concerto, desenvolvido pelo Instituto Guimarães Rosa, órgão de cultura do Ministério das Relações Exteriores, com o intuito de promover a música de compositores brasileiros criada a partir do século XVIII. Cerca de 100 trabalhos orquestrais dos séculos XIX e XX serão gravados pela Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo – Osesp e as Filarmônicas de Minas Gerais e de Goiás. Álbuns de música coral e de câmara serão gradualmente adicionados à coleção. Os trabalhos foram selecionados de acordo com sua importância histórica para a música brasileira e a pré-existência de gravações. A maior parte das obras registradas para a série nunca esteve disponível em fonogramas fora do Brasil; muitas outras terão sua estreia mundial em álbuns. Uma parte importante do projeto é a preparação de novas ou primeiras edições dos trabalhos que serão gravados, muitos dos quais, apesar de sua relevância, só estavam disponíveis no manuscrito do compositor. Este trabalho é feito pela Academia Brasileira de Música e por musicólogos trabalhando em parceria com as orquestras.
 

[Texto de Flávia Camargo Toni sobre o álbum]

Francisco Mignone (1897–1986)
Fantasias Brasileiras Nos. 1–4 ● Burlesca e Toccata

Nascido a 3 de setembro de 1897 numa família de músicos, Francisco Mignone estudou flauta com seu pai, Alfério, e composição e piano, particularmente, no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, profissionalizando-se precocemente como músico popular. Acompanhando uma prática comum na década de 1910, adotou o apelido de Chico Bororó para a produção de música popular, o que tem sido interpretado como um suposto disfarce, como se o jovem escondesse o exercício artístico que poderia ser interpretado como boêmia ou falta de “seriedade” para com a música. Fato é que a prática da música popular ao piano e na flauta pode ter contribuído ao menos para a sua facilidade para improvisar, uma das características de sua escrita e marca da vida inteira.

Os nove anos de estudos na Europa (1920-29), sobretudo na Itália, com Vincenzo Ferroni, distanciaram-no das discussões em torno do Modernismo por poetas, músicos e artistas plásticos como Luciano Gallet, Villa-Lobos, Lorenzo Fernandez, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Anita Malfatti. No entanto, seu nome e obra certamente foram assunto de discussão no meio musical paulista quando, aos 24 anos de idade, uma de suas obras ganhou inesperada notoriedade: a dança elaborada sobre um lundu colhido pelos viajantes J.B. von Spix e C.F.P. von Martius, no século XIX, por ele incluída no segundo ato de sua ópera O Contratador de Diamantes (1921), empregada para caracterizar uma congada, e que, separada da ópera, viria a tornar-se uma de suas obras mais populares. Em 1923, enquanto Villa-Lobos arrumava as malas para sua primeira viagem a Paris, de onde voltaria consagrado pela crítica europeia, Francisco Mignone teve sua Congada executada pela Filarmônica de Viena, regida por Richard Strauss, em concertos realizados em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Regressando ao Brasil em 1929, as cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro passariam a ser os principais centros da sua vida: a primeira, onde estreou obras que marcaram seu repertório; e a segunda, então capital do Brasil, onde amadureceu e trabalhou em instituições que o consagraram, como a Academia Brasileira de Música ou o Theatro Municipal. Uma vez estabelecido em seu novo endereço, Mignone, já professor de regência da Escola Nacional de Música do Rio de Janeiro, continuou a compor intensamente, produzindo um vasto catálogo de obras até a sua morte, a 19 de fevereiro de 1986.

As quatro fantasias escritas para piano e orquestra, bem como o famoso bailado Maracatu de Chico-Rei, todos do período de 1929 a 1936, vincularam a vida e a obra de Mignone à de Mário de Andrade, com quem estudara no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo e discutira, no regresso da Europa, os caminhos de sua linguagem musical. A fantasia é um gênero musical praticado desde o século XVI e, embora tenha passado por transformações significativas, conservou por características principais certa proximidade com os improvisos e alternância de andamentos internos à obra. Mignone sem dúvida tirou proveito desse modelo, explorando com sabedoria na composição suas grandes habilidades como pianista e orquestrador.

A Fantasia Brasileira nº 1 foi composta em 1929, com o título original de Concerto Fantasia Brasileira, e foi estreada a 20 de março de 1931, pela Sociedade Sinfônica de São Paulo, tendo Souza Lima ao piano e Lamberto Baldi na regência. Segundo o programa da estreia, Souza Lima, de passagem por Milão, teria pedido a Mignone que lhe escrevesse uma composição para piano e orquestra sobre temas brasileiros, o que o compositor atendeu entregando a nova obra em menos de quinze dias. A obra possui dois temas principais que se alternam, deles derivando outros que passeiam do piano para os demais instrumentos da orquestra até que, no final, todos aparecem juntos e muito bem combinados. O primeiro crítico a saudar a obra, Mário de Andrade, destacou, sobretudo, a nova orientação estética do autor: “Me parece que nessa orientação conceptiva, em que a nacionalidade não se desvirtua pela preocupação do universal é que está o lado por onde Francisco Mignone poderá nos dar obras valiosas e fecundar a sua personalidade”. Conselho dado, conselho acatado pelo compositor, como se observará nas demais obras da década de 1930.

Composta em 1931, a Fantasia Brasileira nº 2 foi estreada em 1934, no Rio de Janeiro, tendo Souza Lima ao piano e Villa-Lobos como regente. Aqui, se comparada à peça anterior, os temas são mais caracterizados ritmicamente, o que o musicólogo Bruno Kiefer chamou de “elementos musicais considerados de ancestralidade africana”.

A Fantasia Brasileira nº 3, composta em 1934 e dedicada ao pianista espanhol Tomás Terán, foi estreada, em São Paulo, a 10 de maio do mesmo ano, tendo Souza Lima ao piano e Ernst Mehlich na regência da Orquestra do Centro Musical de São Paulo. Cinco anos mais tarde, Terán apresentou-a no Rio de Janeiro e gravou-a em disco, sob a regência do autor e junto à Orquestra do Sindicato Musical do Rio de Janeiro, como uma das peças escolhidas para representar a música brasileira na Feira Mundial de Nova York, realizada em 1940. No jornal, Mário de Andrade destacou a importância da gravação, embora não tenha escondido sua preferência pelas anteriores, de números 1 e 2. No caso da Fantasia nº 3, Mário criticou o emprego reiterado da cadência — fato curioso, uma vez que as “prediletas” também fazem uso do mesmo recurso —, alegando ser, agora, como que uma referência aos concertos antigos. Mas o crítico acrescentou outros elogios ao compositor, como seu “admirável conhecimento da orquestra moderna! Os naipes se conjugam com uma variedade, uma novidade e equilíbrio que, desde o Maracatu de Chico-Rei, fizeram de Francisco Mignone o nosso melhor sinfonista”.

Composta em 1936, a Fantasia Brasileira nº 4 foi estreada a 6 de novembro de 1937, no Theatro Municipal de São Paulo, tendo novamente Souza Lima ao piano e o compositor na regência. Naquela época, a cidade não possuía um grupo sinfônico estável; o Departamento de Cultura esforçava-se tanto para atrair seus ouvintes quanto para gerar oportunidades para as novas criações musicais. A nota de programa descreveu a nova obra assim:

“A 4ª Fantasia é baseada sobre temas africanos do Brasil. O primeiro e o segundo temas [são] do povo carioca e foram cantados pelas ruas durante o carnaval de 1936. Toda a parte central é de pura invenção do autor. Há, no meio da fantasia, uma descrição de ‘rancho’ carnavalesco. Ouve-se o apito acompanhando ritmicamente o conjunto. Os moleques cariocas são useiros em fazer isso durante os desfiles. Para maior colorido, durante esses trechos, o ‘piano solista’ executa, em saltos acrobáticos, acordes dissonantes como para imitar os saltos caprichosos do baliza do ‘rancho’. Na parte ‘final’, o piano imita instrumentos de percussão, em traços de esplêndida virtuosidade.”

Passados mais de vinte anos da última Fantasia, Mignone retorna à formação de piano e orquestra com a Burlesca e Toccata (1958), estreada no Rio de Janeiro tendo José Carlos Cocarelli, ao piano, e a regência de Vicente Fittipaldi. A palavra burlesca, derivada de “burla”, uma brincadeira ou piada, foi empregada na Itália do século XVII para designar as peças em forma de paródia, “brincadeiras”, obras para a diversão. Já o termo toccata designava originalmente uma peça tocada em instrumento com teclado e que, assim como a fantasia, não possuía um arcabouço fixo. Vale dizer, ambas eram próximas ao improviso.

O título Burlesca e Toccata representa uma combinação curiosa (e única) de duas expressões musicais em italiano pouco usuais no século XX. Na primeira parte da obra, a Burlesca, Mignone apresenta uma sequência de melodias atonais, em linguagem musical que contrasta bastante com as melodias usadas na segunda parte, a Toccata. Nessa segunda parte, os trinados da flauta logo nos primeiros compassos, numa espécie de conversa com o piano, estabelecem certo ar brincalhão, descontraído, com o primeiro tema sendo encorpado até percorrer todos os naipes da orquestra. Quando o piano não executa solos quase acrobáticos, comporta-se como um instrumento de percussão, atiçando o frenesi do final da peça.

Mignone talvez tenha nos proposto uma charada nesta obra, quando observamos o contraste entre os seus dois movimentos: o primeiro aludindo a uma brincadeira, ou piada, mas cujo tema e seu desenvolvimento apontam para a ideia de um compositor que aderiu à música “séria”, moderna, pelo atonalismo do material; o outro, Toccata, já é mais próximo à fantasia, principalmente porque seus temas festivos e tratamento virtuosístico do instrumento solista nos fazem lembrar das quatroFantasias Brasileiras. Será então que, ao escrever a peça de 1958, o compositor quis revisitar sua própria linguagem musical da década de 1930, tratando o atonalismo como uma brincadeira e revigorando o frescor dos temas populares da segunda parte com o pomposo título de Toccata?

A Osesp e a Sala São Paulo são equipamentos do Governo do Estado de São Paulo, por intermédio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, gerenciadas pela Fundação Osesp, Organização Social da Cultura.

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